sábado, 10 de novembro de 2012

o Sol da escrita

O Sol da escrita

Todos os dias o sol negro da escrita me desperta.
Todos os dias o sol noturno da escrita, molusco, polvo, peixe, coral líquido me irrita.
E quando fujo, provoca outras, outros que fui, serei e sou eu mesmo assim, particularmente múltipla, poeira cósmica, universitária santa, puta mãe em potencial, querendo ser simples sem nunca conseguir despachar a bagagem acadêmica de cima das minhas costas.

As estrelas caem nas minhas mãos e no papel.
As estrelas, ao meu comando, caem em qualquer lugar.
Quando você estiver lendo a próxima frase, uma estrela vai cair na sua nuca.
Eu te mando uma gota de chuva, leitor, eu te envio um cheque de um milhão de dólares.
Eu te ofereço tudo, com a imaginação que é nossa, eu te ofereço o mundo.

Só não posso te oferecer o céu da escrita, o sol escrevente que me chama tocando sinos, quebrando pratos.
Este sol é meu. O desaprendizado técnico particular que me falta, a orquestração poética que me pertence, as notas escritas sobre a pele, o corpo, o meu corpo, tudo o que é meu, seu, e nada, tudo, menos o sol da escrita.

Da minha escrita que você bebe agora, e que eu te ofereço, assumo também o cálice, o impossível empréstimo. Um brinde. A nós. Ao nosso ódio. Ao nosso amor.
Um brinde sem indiferença.






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