quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O meu corpo


Foto: Juliana

O meu corpo


De dentro do meu corpo eu acordo e não acredito.

Tenho transporte e voz e posso ir onde quiser. Mas o maior susto é saber que estamos juntos, que conto com todo o meu corpo vivo hoje e tenho mais um dia livre.

Há essa reserva de tempo e de energia disponível para caminhar até mim, até você, até a padaria, até o pronto-socorro, a igreja, a montanha.

Todos os dias com meu corpo são e estão presentes. Presente de des-aniversário e de aniversário estar aqui, parabéns pra você caminhando entre as linhas dos segredos, das vontades, da sede, da calma, da escrita. Eu estou presente hoje, eu estou criando minha presença mais doce hoje. Comemore comigo o fim do pesadelo.

Preciso me reconciliar não com a escrita, mas com as ruínas. Preciso escrever sobrevivi  a centenas, a milhares de cortes, de variados tamanhos e cores.

O diamante lapidado de uma agressão fere a pele da alma, o diamante da nova humilhação disponível retorna, como sombra, como assombração, como luz clara e evidente escrita com letra legível. Mais uma vez, um sentimento de ser machucada por alguém, um olhar, uma palavra para me diminuir. Justo hoje, no dia que ganhei de graça, ou por mérito desconhecido. Mas Hoje apaga todas as dores para sempre. Mesmo que muitos corpos animados hoje transformem-se naqueles que extraem alegria da desgraça alheia, dos segredos dos outros, das fraquezas e muletas que levo comigo, ainda assim estou feliz.

Humilhações são dissolvidas depois de certo número de ocorrências. Este é o segredo de estar livre, é sofrer uma agressão e estar mais forte do que ela, com os pés cravados no chão e o espírito mais alto do que qualquer tentativa de me machucar.

De dentro do meu corpo eu escrevo e reescrevo o conhecimento, o horror e o contentamento mais sublime. Um baú de memórias trêmulas. Um diário de grandes saltos e vôos imprevistos anima meu corpo neste minuto.

Meu corpo curado e cuidado por mim, arruinado e reerguido, um corpo que se transforma e se adapta a terremotos, cacos, perdas, silêncios, dores maiores do que palavras.

Meu corpo antigo e alegre recita meus melhores segredos.
Os melhores segredos eu compartilho com o meu corpo. É assim, solitário, mas acontece em companhia.

Sobre a minha pele, dormem quietos os gatos. Os gatos secretos das sensações indescritíveis que articulam cada um dos ossos do esqueleto da minha leveza.
O móbile das minhas quedas transformado em sistema solar, exuberante constelação de segredos íntimos, segredos da nuca, do ombro, da barriga. Segredos do corpo.

Com meu corpo hoje me sinto inteira, única, rica, irremediavelmente próspera.

Hoje estou bonita de uma beleza indecifrada, que só eu conheço.

Hoje visto a coroa de flores, os véus de noiva, as rosas vermelhas. O meu nome.

Meus passos escrevem um futuro que dispensa recuperação. Um futuro brilhante.

E o final dos segredos pequenos do corpo é a certeza desconhecida e amplificada.

Eu sei que logo vou ser mãe.





Júlia




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