sábado, 10 de novembro de 2012

Amplitude íntima

Foto: Juliana

Amplitude íntima

Como vou me apresentar para você?
Sou uma mulher? Esta palavra simples e impossível.
Poderia ter dito que sou um ser humano, mas ser humano evoca em mim uma mistura de Walt Whitman e Hitler.
Sou um ser humano mas não estou nua, nas páginas dos manuais de médicos tarados do século XIX.
Eu vou abreviar isso dizendo que sempre escrevi.
Sempre escrevi.
Viver, escrever, deixar a roupa suja na escrita, meus erros, defeitos, minha fome, minha paciência forçada.

Amplitude íntima da página onde escrevo fugindo de me repetir me repetindo.
Hoje estive dentro de tantos papéis, tantas roupas, quis apagar as palavras da minha cabeça.

Palavras, fiquem quietas um pouco.
Palavras algas no fundo do mar me deixando dormir escrevendo, sonhar escrevendo, respirar escrevendo, escrevendo mentalmente sem parar uma história que se perde. Negada tantas vezes. Desmanchada.

Todos os elementos ao alcance da mão.
Nossa heroína infelizmente está resistindo a reclamar. Não reclama de mais nada. Não reclama. Nem uma palavra negativa manchando o ar de treva, de fumaça escura, de torções internas, nos órgãos dos outros, ao redor dos olhos, nada. Nenhum incômodo.

Vivendo na época das pessoas maduras, felizes e seguras, ela recusa-se a reclamar. Quer escrever uma carta para o amigo escritor dizendo que não está tudo bem, mas a cada reclamação segue-se a resposta pronta contrária, de que "eu sei que isto não é nada", de que "isto também vai passar", de que "há muita justiça disponível e muita ordem no mundo", "mesmo que você não entenda", "está tudo bem se você projetar coisas boas". "Você já reclamou disso tantas vezes". "Você tem razão, e daí?".

O tribunal interno não permite reclamações hoje. O guichê está fechado pelo super-ego.
Saturno não tolera mais súplicas, e nem o direito à palavra "cansaço" lhe está disponível.

Então só resta o muro. O contra-argumento eterno de que está tudo bem.

Tudo bem e cada vez melhor. A felicidade cortando os galhos da árvore dos lamentos.

A autoritária felicidade e as comprovações concretas de que tudo flui.

Mentiras e verdades gastas, espalhadas pela casa, mudas.

Amplitude íntima, garganta estreita.

E um beijo, um chamado, a chuva. O mundo inteiro trazendo presentes.


Gratidão e tristeza de mãos dadas e uma felicidade estranha desmanchando as letras.












o Sol da escrita

O Sol da escrita

Todos os dias o sol negro da escrita me desperta.
Todos os dias o sol noturno da escrita, molusco, polvo, peixe, coral líquido me irrita.
E quando fujo, provoca outras, outros que fui, serei e sou eu mesmo assim, particularmente múltipla, poeira cósmica, universitária santa, puta mãe em potencial, querendo ser simples sem nunca conseguir despachar a bagagem acadêmica de cima das minhas costas.

As estrelas caem nas minhas mãos e no papel.
As estrelas, ao meu comando, caem em qualquer lugar.
Quando você estiver lendo a próxima frase, uma estrela vai cair na sua nuca.
Eu te mando uma gota de chuva, leitor, eu te envio um cheque de um milhão de dólares.
Eu te ofereço tudo, com a imaginação que é nossa, eu te ofereço o mundo.

Só não posso te oferecer o céu da escrita, o sol escrevente que me chama tocando sinos, quebrando pratos.
Este sol é meu. O desaprendizado técnico particular que me falta, a orquestração poética que me pertence, as notas escritas sobre a pele, o corpo, o meu corpo, tudo o que é meu, seu, e nada, tudo, menos o sol da escrita.

Da minha escrita que você bebe agora, e que eu te ofereço, assumo também o cálice, o impossível empréstimo. Um brinde. A nós. Ao nosso ódio. Ao nosso amor.
Um brinde sem indiferença.






quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O meu corpo


Foto: Juliana

O meu corpo


De dentro do meu corpo eu acordo e não acredito.

Tenho transporte e voz e posso ir onde quiser. Mas o maior susto é saber que estamos juntos, que conto com todo o meu corpo vivo hoje e tenho mais um dia livre.

Há essa reserva de tempo e de energia disponível para caminhar até mim, até você, até a padaria, até o pronto-socorro, a igreja, a montanha.

Todos os dias com meu corpo são e estão presentes. Presente de des-aniversário e de aniversário estar aqui, parabéns pra você caminhando entre as linhas dos segredos, das vontades, da sede, da calma, da escrita. Eu estou presente hoje, eu estou criando minha presença mais doce hoje. Comemore comigo o fim do pesadelo.

Preciso me reconciliar não com a escrita, mas com as ruínas. Preciso escrever sobrevivi  a centenas, a milhares de cortes, de variados tamanhos e cores.

O diamante lapidado de uma agressão fere a pele da alma, o diamante da nova humilhação disponível retorna, como sombra, como assombração, como luz clara e evidente escrita com letra legível. Mais uma vez, um sentimento de ser machucada por alguém, um olhar, uma palavra para me diminuir. Justo hoje, no dia que ganhei de graça, ou por mérito desconhecido. Mas Hoje apaga todas as dores para sempre. Mesmo que muitos corpos animados hoje transformem-se naqueles que extraem alegria da desgraça alheia, dos segredos dos outros, das fraquezas e muletas que levo comigo, ainda assim estou feliz.

Humilhações são dissolvidas depois de certo número de ocorrências. Este é o segredo de estar livre, é sofrer uma agressão e estar mais forte do que ela, com os pés cravados no chão e o espírito mais alto do que qualquer tentativa de me machucar.

De dentro do meu corpo eu escrevo e reescrevo o conhecimento, o horror e o contentamento mais sublime. Um baú de memórias trêmulas. Um diário de grandes saltos e vôos imprevistos anima meu corpo neste minuto.

Meu corpo curado e cuidado por mim, arruinado e reerguido, um corpo que se transforma e se adapta a terremotos, cacos, perdas, silêncios, dores maiores do que palavras.

Meu corpo antigo e alegre recita meus melhores segredos.
Os melhores segredos eu compartilho com o meu corpo. É assim, solitário, mas acontece em companhia.

Sobre a minha pele, dormem quietos os gatos. Os gatos secretos das sensações indescritíveis que articulam cada um dos ossos do esqueleto da minha leveza.
O móbile das minhas quedas transformado em sistema solar, exuberante constelação de segredos íntimos, segredos da nuca, do ombro, da barriga. Segredos do corpo.

Com meu corpo hoje me sinto inteira, única, rica, irremediavelmente próspera.

Hoje estou bonita de uma beleza indecifrada, que só eu conheço.

Hoje visto a coroa de flores, os véus de noiva, as rosas vermelhas. O meu nome.

Meus passos escrevem um futuro que dispensa recuperação. Um futuro brilhante.

E o final dos segredos pequenos do corpo é a certeza desconhecida e amplificada.

Eu sei que logo vou ser mãe.





Júlia




sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Primavera adiada



Primavera adiada

Conversei muito com os deuses meses antes de te conhecer. Ergui a cabeça para o céu azul escuro da cidade e desafiei os deuses a criarem o nosso encontro.

Eu não tinha mais forças para suportar o peso do tempo em mim. Um tempo vazio e sem música, rasgado por unhas de dentro de um sonho em que as xícaras quebravam antes de você beber o chá.

Os deuses não são surdos, mas são cheios de vontade. Quando a noite estava ruim eu erguia o rosto para a noite dizendo que ela me devia muito, muito mais do que estava pagando. Às vezes a noite se comovia e o bem-estar lembrava um vestido novo, verde-água, mas escurecia de manhã.

Uma noite eu estive no trapézio para encontrar, um campo de girassóis por dentro. Calma. Mas sem a calma idiota de quem promove a paz ignorando a guerra. Outra calma. Uma calma que supera a calma, mas não foi inventada ainda uma palavra para isso. Meta-calma. Eu estava em meta-calma quando te conheci. E no clima de um irracional entusiasmo.

A semente deste entusiasmo foi uma mensagem de celular que uma amiga escritora me enviou meses antes. Perguntei se estava tudo bem e ela respondeu: “Tudo. Trabalhando muito para sair de folga na quinta que vem. E decidida: quero viver um grande amor. Espero por isso com alegria, me faço bonita, testo nomes no escuro.” Fim de maio, há anos atrás.

Acho que tentei agarrar este espírito. Tentei colocar este espírito de que uma coisa muito boa ia acontecer logo, como quem agarra uma fada do escuro. Eu sei que isto parece a primeira lição da auto-ajuda mais barata que se pode encontrar na estante de livros do supermercado, mas é uma pequena fração de estratégia de sobrevivência de quem se machucou etc.

Comecei a envelhecer muito rápido de uma hora para a outra. Não queria sair para nenhum lugar, e quase todas as pessoas me deixavam com um gosto de desencanto na alma, a sensação nefasta de acabar de sair de um filme muito ruim que roubou duas horas da minha vida e uma parte do dinheiro que eu tinha para sair. Uma sensação de perda e de lástima. 

Então agarrei aquela fada amassada no bolso, a fada de que tudo ia dar certo ainda. Ela olhou para mim, da palma da minha mão, passou a mão sobre o vestido de folha de amora, desamarrotou a roupa e foi embora. Um floco de luz se movimentando pelo quarto como um pernilongo. O floco deu meia-volta, um avião bêbado, chegou bem perto da minha cara e mostrou a língua. Nunca mais vi a fada, mas soube que ela estava certa. Meu mundo estava sério demais, descuidado, e para quem estava envelhecendo rápido, eu precisava tomar conta de mim.

Então começara os rituais secretos e as negociações com os deuses. Do meio de situações irônicas, eu atirava as minhas súplicas. Até que fui parando de escrever cartas para um desconhecido e comecei os pequenos cuidados.

Torcer a esperança até ela sangrar, se ela está te incomodando. Ter mais segurança do que a esperança. Quando mais eu falava com Deus, os deuses e a noite sobre o absurdo de cada situação, mais me sentia cúmplice deles, secretamente cúmplice, até dos anjos. E distante.
Uma noite, antes de sair, a maçaneta da porta caiu na rua. Coloquei a maçaneta no bolso e saí para um show. Eu saí dentro da programação de cuidados pessoais com a minha alma machucada, aquele show tinha as músicas obrigatórias para o tratamento.

Já não sei se era sonho ou se olhei para a multidão querendo que ele aparecesse. Mas sei que ele estava ali, parado, e olhou para mim. Ele me cumprimentou, eu não ouvi, mas vi a boca e os olhos, disse oi.

Oi.

Este oi se multiplicou nas flores amarelas caindo sobre o caminho dos meus pés e mudando os meus escritos. 

Acordei de um tom menor para um tom maior exageradamente festivo, um raio de sol dentro do envelope de uma notícia triste, a cura para o final de um livro, agora reescrito.

Pequenos cuidados, flores da primavera adiada para as flores no seu cabelo. 

Pequena inclinação festiva para delicadas frações de felicidade que cabem no pulso, no vento, no ponto final da espera a página seguinte.

segunda-feira, 30 de julho de 2012



Ao contrário das casas que reformo, não espero reformas na vida. A vida não é um bem imóvel.

Espero as marcas, não suporto assepsia. Amo as ruínas. Acho que há mais beleza nas ruínas que em revistas de decoração.

Eu que já me quebrei tantas vezes e mesmo assim existo, sinto que esconder todas as cicatrizes me deixaria invisível. Sinto-me invisível, pois prefiro não mostrar as cicatrizes para qualquer um. Talvez eu viva num limbo.

Só posso me entregar sendo visível, só sou visível em minhas ruínas, em pedaços. Arrumada e perfumada eu não sou ninguém por quem eu me interesse.

Despedaçada eu não sou ninguém por quem alguém se interesse.

ass: Juliana

domingo, 29 de julho de 2012




Montanhas.

Ontem um amigo estava falando sobre escalar montanhas, chutar as ambições para a montanha mais próxima, correr e subir, subir e descer, escalar outra montanha. Um cansaço de tudo o que foi erigido com pressa.

Ontem um amigo desistiu de chegar ao topo e está descansando no vale, onde ninguém pode vê-lo, onde o silêncio te faz companhia.

O que eu quero hoje?

Quero o fim dos pedidos, o início da calma e o fio de água que corre entre as curvas e pedras.
O que eu quero é agarrar a montanha, remoer a terra, plantar sementes, cada folha nova crescendo invisível, cada dia novo escalando o muro do meu tempo.

O que eu quero é acordar, e acreditar que você está perto, cada vez mais perto da linha do tempo onde existe o nosso encontro.

Que você pise na linha do novelo que eu vou rolar no chão e jogar para cima até espalhar os fios de barbante por toda a minha vida, e depois colar as suas e as minhas roupas, as nossas fotografias, bilhetes de shows e desenhos engraçados no varal. E que essa roupa seque, e que a chuva molhe a roupa e os pingos no chão façam mais desenhos abstratos. Que a nossa pauta esteja livre e aberta para mais uma valsa.

Não quero ser a montanha que espera, mas a água que corre.

Quero sedimentar o bom sentimento. O frio das especulações arrebenta sobre a minha sombra ao lado da sua sombra no porta-retrato do asfalto.

Quero a agricultura das piadas que faremos juntos.

Quero as folhas amarelas, um vento no corpo, me dizendo que estou leve, com, sem, você, eu, leve sem que a espera seja a velha senhora que reclama de todas as distâncias, que a montanha seja apenas este imenso contentamento que é solúvel com o porre da sua companhia.

Que se transforme devagar o nosso amor ainda fresco, argila, terra fértil, território de viagens e passeios à padaria mais próxima.

Escrevo para que você exista.
Escrevo porque você existe e eu estou te chamando.

Escrevo palavras e junto adubo na montanha de histórias que vou contar sobre nós dois, o pequeno continente de um encontro, a nossa prosa poética, a nossa própria política, a geografia dos nossos corpos juntos, a entrega, a conquista de um povo com o meu exército de escritos. A literatura própria de um casal que escreve contos e romances. A crônica da minha casa impressionada com a sua visita.
O que eu quero nessa geologia de dramas passados é a independência do meu povo que luta diariamente contra as opressões do meu sistema de erros. Descompassos.

Revolucionar todos os minutos, para que eles sejam vivos, inquietos.

Quando você chegar à fronteira, não será um estrangeiro. Você será recebido no acolhimento mais diplomático, sem a burocracia de jogos e chantagens, e receberá o passaporte, um beijo, um abraço, uma camiseta, quem sabe um visto permanente.

Agora que você está menos distante, o meu rosto rejuvenesce. Eu tento manter o governo das minhas faculdades mentais intacto, mas a alegria que você trouxe na bagagem me deixa tão louca e esquisita. Eu tento culpar as suas roupas, mas seus olhos fecham um pouco no sorriso dócil e as linhas ali perto, no rosto me desmancham.

Amor de montanhas. E uma sede de náufrago.

O mar da espera me dá náusea, salgado, imprevisível, lento, violento, indeciso, me deixa de ressaca.


Mas o chão do seu nome me recompõe. O chão do seu nome escreve a personagem que escrevi para mim. A terra do seu nome tem música. A pele do meu corpo satisfeita.

Vontade de dançar. Com as estrelas, com as vacas.

Júlia.









quarta-feira, 18 de julho de 2012



A tristeza é algo imenso e como um gigante ditador regula todas as suas ações e faz sombra em toda área que você pretende existir.

A tristeza é um cobertor de chumbo que não te deixa dormir nem se mexer e faz com que se sinta todo seu peso o tempo enquanto, sub-reptício, diz que te aquece te protege do mundo cinza que ela mesma desenhou.

E todo o triste se espanta diante do delicado-canto-quase-invisível, e pensa:  olha a beleza de uma coisa tão pequena. Uma beleza de fresta ao fundo de um cômodo sem janelas. A possibilidade de resistência. O desafie ao imperativo. Ao absoluto. Coisas pequenas resistem, o triste se deslumbra. Sobreviver. Apesar de toda imensidão.

Juliana

azul
sinto sua falta, sinto falta de falar o seu nome para alguém da minha família, com um tipo de satisfação secreta e de amor, o amor que hoje tento encontrar na calçada e nas montanhas da cidade.

despertar aos poucos para a sua companhia.

já não é mais a mesma febre e sede e fome, a falta de fôlego e o excesso de choro preso no corpo de quando a escritora de vinte anos sentava no café do cinema com seu caderno para escrever um livro antes do filme.

hoje é o tempo azul dos barcos. o tempo que não me inquieta tanto.
oceano pacífico de perdas, e a felicidade líquida de não esperar telefonemas e de evitar os dramas.

azul. o fim do dia.
azul de esperas e machucados boiando no mar escuro do passado. na gaveta, no poço.
azul das minhas veias e da maquiagem que nunca usei. azul do uniforme do colégio, do céu quando eu olho para o céu. azul de uma jaqueta e de um tênis e a dúvida se devo comprar de novo um tênis azul ou se dessa vez eu mudo para o verde ou para o violeta.

descanso longe dos pedidos. descanso no papel.

palavras para escrever depois da primavera e do inverno, depois de tantas histórias e agora, viva ainda, bonita ainda, alegre ainda, mesmo sem você. entre clichês ainda. mas contente.

você, o porto de todos os assuntos e o motivo do impulso para escrever sobre a falta que hoje é leve.
se é que uma falta pode ser leve.

quando você não estava. nem sempre foi ruim.


ass. júlia.