Montanhas.
Ontem um amigo estava falando sobre escalar
montanhas, chutar as ambições para a montanha mais próxima, correr e subir,
subir e descer, escalar outra montanha. Um cansaço de tudo o que foi erigido
com pressa.
Ontem um amigo desistiu de chegar ao topo e está descansando
no vale, onde ninguém pode vê-lo, onde o silêncio te faz companhia.
O que eu quero hoje?
Quero o fim dos pedidos, o início da calma e o fio
de água que corre entre as curvas e pedras.
O que eu quero é agarrar a montanha, remoer a terra,
plantar sementes, cada folha nova crescendo invisível, cada dia novo escalando
o muro do meu tempo.
O que eu quero é acordar, e acreditar que você está perto,
cada vez mais perto da linha do tempo onde existe o nosso encontro.
Que você pise na linha do novelo que eu vou rolar no
chão e jogar para cima até espalhar os fios de barbante por toda a minha vida,
e depois colar as suas e as minhas roupas, as nossas fotografias, bilhetes de
shows e desenhos engraçados no varal. E que essa roupa seque, e que a chuva
molhe a roupa e os pingos no chão façam mais desenhos abstratos. Que a nossa
pauta esteja livre e aberta para mais uma valsa.
Não quero ser a montanha que espera, mas a água que
corre.
Quero sedimentar o bom sentimento. O frio das
especulações arrebenta sobre a minha sombra ao lado da sua sombra no
porta-retrato do asfalto.
Quero a agricultura das piadas que faremos juntos.
Quero as folhas amarelas, um vento no corpo, me
dizendo que estou leve, com, sem, você, eu, leve sem que a espera seja a velha
senhora que reclama de todas as distâncias, que a montanha seja apenas este
imenso contentamento que é solúvel com o porre da sua companhia.
Que se transforme devagar o nosso amor ainda fresco,
argila, terra fértil, território de viagens e passeios à padaria mais próxima.
Escrevo para que você exista.
Escrevo porque você existe e eu estou te chamando.
Escrevo palavras e junto adubo na montanha de
histórias que vou contar sobre nós dois, o pequeno continente de um encontro, a
nossa prosa poética, a nossa própria política, a geografia dos nossos corpos
juntos, a entrega, a conquista de um povo com o meu exército de escritos. A
literatura própria de um casal que escreve contos e romances. A crônica da
minha casa impressionada com a sua visita.
O que eu quero nessa geologia de dramas passados é a
independência do meu povo que luta diariamente contra as opressões do meu
sistema de erros. Descompassos.
Revolucionar todos os minutos, para que eles sejam vivos,
inquietos.
Quando você chegar à fronteira, não será um
estrangeiro. Você será recebido no acolhimento mais diplomático, sem a burocracia
de jogos e chantagens, e receberá o passaporte, um beijo, um abraço, uma
camiseta, quem sabe um visto permanente.
Agora que você está menos distante, o meu rosto
rejuvenesce. Eu tento manter o governo das minhas faculdades mentais intacto,
mas a alegria que você trouxe na bagagem me deixa tão louca e esquisita. Eu
tento culpar as suas roupas, mas seus olhos fecham um pouco no sorriso dócil e
as linhas ali perto, no rosto me desmancham.
Amor de montanhas. E uma sede de náufrago.
O mar da espera me dá náusea, salgado, imprevisível,
lento, violento, indeciso, me deixa de ressaca.
Mas o chão do seu nome me recompõe. O chão do seu
nome escreve a personagem que escrevi para mim. A terra do seu nome tem música.
A pele do meu corpo satisfeita.
Vontade de dançar. Com as estrelas, com as vacas.
Júlia.