sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Primavera adiada



Primavera adiada

Conversei muito com os deuses meses antes de te conhecer. Ergui a cabeça para o céu azul escuro da cidade e desafiei os deuses a criarem o nosso encontro.

Eu não tinha mais forças para suportar o peso do tempo em mim. Um tempo vazio e sem música, rasgado por unhas de dentro de um sonho em que as xícaras quebravam antes de você beber o chá.

Os deuses não são surdos, mas são cheios de vontade. Quando a noite estava ruim eu erguia o rosto para a noite dizendo que ela me devia muito, muito mais do que estava pagando. Às vezes a noite se comovia e o bem-estar lembrava um vestido novo, verde-água, mas escurecia de manhã.

Uma noite eu estive no trapézio para encontrar, um campo de girassóis por dentro. Calma. Mas sem a calma idiota de quem promove a paz ignorando a guerra. Outra calma. Uma calma que supera a calma, mas não foi inventada ainda uma palavra para isso. Meta-calma. Eu estava em meta-calma quando te conheci. E no clima de um irracional entusiasmo.

A semente deste entusiasmo foi uma mensagem de celular que uma amiga escritora me enviou meses antes. Perguntei se estava tudo bem e ela respondeu: “Tudo. Trabalhando muito para sair de folga na quinta que vem. E decidida: quero viver um grande amor. Espero por isso com alegria, me faço bonita, testo nomes no escuro.” Fim de maio, há anos atrás.

Acho que tentei agarrar este espírito. Tentei colocar este espírito de que uma coisa muito boa ia acontecer logo, como quem agarra uma fada do escuro. Eu sei que isto parece a primeira lição da auto-ajuda mais barata que se pode encontrar na estante de livros do supermercado, mas é uma pequena fração de estratégia de sobrevivência de quem se machucou etc.

Comecei a envelhecer muito rápido de uma hora para a outra. Não queria sair para nenhum lugar, e quase todas as pessoas me deixavam com um gosto de desencanto na alma, a sensação nefasta de acabar de sair de um filme muito ruim que roubou duas horas da minha vida e uma parte do dinheiro que eu tinha para sair. Uma sensação de perda e de lástima. 

Então agarrei aquela fada amassada no bolso, a fada de que tudo ia dar certo ainda. Ela olhou para mim, da palma da minha mão, passou a mão sobre o vestido de folha de amora, desamarrotou a roupa e foi embora. Um floco de luz se movimentando pelo quarto como um pernilongo. O floco deu meia-volta, um avião bêbado, chegou bem perto da minha cara e mostrou a língua. Nunca mais vi a fada, mas soube que ela estava certa. Meu mundo estava sério demais, descuidado, e para quem estava envelhecendo rápido, eu precisava tomar conta de mim.

Então começara os rituais secretos e as negociações com os deuses. Do meio de situações irônicas, eu atirava as minhas súplicas. Até que fui parando de escrever cartas para um desconhecido e comecei os pequenos cuidados.

Torcer a esperança até ela sangrar, se ela está te incomodando. Ter mais segurança do que a esperança. Quando mais eu falava com Deus, os deuses e a noite sobre o absurdo de cada situação, mais me sentia cúmplice deles, secretamente cúmplice, até dos anjos. E distante.
Uma noite, antes de sair, a maçaneta da porta caiu na rua. Coloquei a maçaneta no bolso e saí para um show. Eu saí dentro da programação de cuidados pessoais com a minha alma machucada, aquele show tinha as músicas obrigatórias para o tratamento.

Já não sei se era sonho ou se olhei para a multidão querendo que ele aparecesse. Mas sei que ele estava ali, parado, e olhou para mim. Ele me cumprimentou, eu não ouvi, mas vi a boca e os olhos, disse oi.

Oi.

Este oi se multiplicou nas flores amarelas caindo sobre o caminho dos meus pés e mudando os meus escritos. 

Acordei de um tom menor para um tom maior exageradamente festivo, um raio de sol dentro do envelope de uma notícia triste, a cura para o final de um livro, agora reescrito.

Pequenos cuidados, flores da primavera adiada para as flores no seu cabelo. 

Pequena inclinação festiva para delicadas frações de felicidade que cabem no pulso, no vento, no ponto final da espera a página seguinte.

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