Primavera
adiada
Conversei muito com os deuses meses antes de
te conhecer. Ergui a cabeça para o céu azul escuro da cidade e desafiei os
deuses a criarem o nosso encontro.
Eu não tinha mais forças para suportar o peso
do tempo em mim. Um tempo vazio e sem música, rasgado por unhas de dentro de um
sonho em que as xícaras quebravam antes de você beber o chá.
Os deuses não são surdos, mas são cheios de
vontade. Quando a noite estava ruim eu erguia o rosto para a noite dizendo que
ela me devia muito, muito mais do que estava pagando. Às vezes a noite se
comovia e o bem-estar lembrava um vestido novo, verde-água, mas escurecia de
manhã.
Uma noite eu estive no trapézio para
encontrar, um campo de girassóis por dentro. Calma. Mas sem a calma idiota de
quem promove a paz ignorando a guerra. Outra calma. Uma calma que supera a
calma, mas não foi inventada ainda uma palavra para isso. Meta-calma. Eu estava
em meta-calma quando te conheci. E no clima de um irracional entusiasmo.
A semente deste entusiasmo foi uma mensagem
de celular que uma amiga escritora me enviou meses antes. Perguntei se estava
tudo bem e ela respondeu: “Tudo. Trabalhando muito para sair de folga na quinta
que vem. E decidida: quero viver um grande amor. Espero por isso com alegria,
me faço bonita, testo nomes no escuro.” Fim de maio, há anos atrás.
Acho que tentei agarrar este espírito. Tentei
colocar este espírito de que uma coisa muito boa ia acontecer logo, como quem
agarra uma fada do escuro. Eu sei que isto parece a primeira lição da
auto-ajuda mais barata que se pode encontrar na estante de livros do
supermercado, mas é uma pequena fração de estratégia de sobrevivência de quem
se machucou etc.
Comecei a envelhecer muito rápido de uma hora
para a outra. Não queria sair para nenhum lugar, e quase todas as pessoas me
deixavam com um gosto de desencanto na alma, a sensação nefasta de acabar de
sair de um filme muito ruim que roubou duas horas da minha vida e uma parte do
dinheiro que eu tinha para sair. Uma sensação de perda e de lástima.
Então
agarrei aquela fada amassada no bolso, a fada de que tudo ia dar certo ainda.
Ela olhou para mim, da palma da minha mão, passou a mão sobre o vestido de
folha de amora, desamarrotou a roupa e foi embora. Um floco de luz se
movimentando pelo quarto como um pernilongo. O floco deu meia-volta, um
avião bêbado, chegou bem perto da minha cara e mostrou a língua. Nunca mais vi a
fada, mas soube que ela estava certa. Meu mundo estava sério demais,
descuidado, e para quem estava envelhecendo rápido, eu precisava tomar conta de
mim.
Então começara os rituais secretos e as
negociações com os deuses. Do meio de situações irônicas, eu atirava as minhas
súplicas. Até que fui parando de escrever cartas para um desconhecido e comecei
os pequenos cuidados.
Torcer a esperança até ela sangrar, se ela
está te incomodando. Ter mais segurança do que a esperança. Quando mais eu
falava com Deus, os deuses e a noite sobre o absurdo de cada situação, mais me
sentia cúmplice deles, secretamente cúmplice, até dos anjos. E distante.
Uma noite, antes de sair, a maçaneta da porta
caiu na rua. Coloquei a maçaneta no bolso e saí para um show. Eu saí dentro da
programação de cuidados pessoais com a minha alma machucada, aquele show tinha
as músicas obrigatórias para o tratamento.
Já não sei se era sonho ou se olhei para a
multidão querendo que ele aparecesse. Mas sei que ele estava ali, parado, e
olhou para mim. Ele me cumprimentou, eu não ouvi, mas vi a boca e os olhos,
disse oi.
Oi.
Este oi se multiplicou nas flores amarelas
caindo sobre o caminho dos meus pés e mudando os meus escritos.
Acordei de um
tom menor para um tom maior exageradamente festivo, um raio de sol dentro do
envelope de uma notícia triste, a cura para o final de um livro, agora reescrito.
Pequenos cuidados, flores da primavera adiada
para as flores no seu cabelo.
Pequena inclinação festiva para delicadas frações
de felicidade que cabem no pulso, no vento, no ponto final da espera a página
seguinte.
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