domingo, 29 de julho de 2012




Montanhas.

Ontem um amigo estava falando sobre escalar montanhas, chutar as ambições para a montanha mais próxima, correr e subir, subir e descer, escalar outra montanha. Um cansaço de tudo o que foi erigido com pressa.

Ontem um amigo desistiu de chegar ao topo e está descansando no vale, onde ninguém pode vê-lo, onde o silêncio te faz companhia.

O que eu quero hoje?

Quero o fim dos pedidos, o início da calma e o fio de água que corre entre as curvas e pedras.
O que eu quero é agarrar a montanha, remoer a terra, plantar sementes, cada folha nova crescendo invisível, cada dia novo escalando o muro do meu tempo.

O que eu quero é acordar, e acreditar que você está perto, cada vez mais perto da linha do tempo onde existe o nosso encontro.

Que você pise na linha do novelo que eu vou rolar no chão e jogar para cima até espalhar os fios de barbante por toda a minha vida, e depois colar as suas e as minhas roupas, as nossas fotografias, bilhetes de shows e desenhos engraçados no varal. E que essa roupa seque, e que a chuva molhe a roupa e os pingos no chão façam mais desenhos abstratos. Que a nossa pauta esteja livre e aberta para mais uma valsa.

Não quero ser a montanha que espera, mas a água que corre.

Quero sedimentar o bom sentimento. O frio das especulações arrebenta sobre a minha sombra ao lado da sua sombra no porta-retrato do asfalto.

Quero a agricultura das piadas que faremos juntos.

Quero as folhas amarelas, um vento no corpo, me dizendo que estou leve, com, sem, você, eu, leve sem que a espera seja a velha senhora que reclama de todas as distâncias, que a montanha seja apenas este imenso contentamento que é solúvel com o porre da sua companhia.

Que se transforme devagar o nosso amor ainda fresco, argila, terra fértil, território de viagens e passeios à padaria mais próxima.

Escrevo para que você exista.
Escrevo porque você existe e eu estou te chamando.

Escrevo palavras e junto adubo na montanha de histórias que vou contar sobre nós dois, o pequeno continente de um encontro, a nossa prosa poética, a nossa própria política, a geografia dos nossos corpos juntos, a entrega, a conquista de um povo com o meu exército de escritos. A literatura própria de um casal que escreve contos e romances. A crônica da minha casa impressionada com a sua visita.
O que eu quero nessa geologia de dramas passados é a independência do meu povo que luta diariamente contra as opressões do meu sistema de erros. Descompassos.

Revolucionar todos os minutos, para que eles sejam vivos, inquietos.

Quando você chegar à fronteira, não será um estrangeiro. Você será recebido no acolhimento mais diplomático, sem a burocracia de jogos e chantagens, e receberá o passaporte, um beijo, um abraço, uma camiseta, quem sabe um visto permanente.

Agora que você está menos distante, o meu rosto rejuvenesce. Eu tento manter o governo das minhas faculdades mentais intacto, mas a alegria que você trouxe na bagagem me deixa tão louca e esquisita. Eu tento culpar as suas roupas, mas seus olhos fecham um pouco no sorriso dócil e as linhas ali perto, no rosto me desmancham.

Amor de montanhas. E uma sede de náufrago.

O mar da espera me dá náusea, salgado, imprevisível, lento, violento, indeciso, me deixa de ressaca.


Mas o chão do seu nome me recompõe. O chão do seu nome escreve a personagem que escrevi para mim. A terra do seu nome tem música. A pele do meu corpo satisfeita.

Vontade de dançar. Com as estrelas, com as vacas.

Júlia.









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